reconhecendo-me

textos

sobre conversas e discussões

conversas e discussões não são um jogo com dois lados, não são uma luta entre o bem o mal.

quando acredito que entendi um fenômeno sou acometida por uma sensação de clareza e sinto um certo orgulho. é natural que, ao entrar em uma conversa sobre o tema, eu expresse aquilo que entendi acreditando que está certo e desejando que as pessoas vejam como eu, ou pelo menos escutem o que eu estou dizendo.

o que acontece às vezes é a mistura que eu faço daquele pensamento com a minha própria identidade: como se aquela concepção sobre o fenômeno não fosse apenas um modo como o percebi em determinado momento, como se a análise fosse parte indissociável de mim, como se fosse eu.

se essa interpretação das coisas começa a se integrar à minha existência com muita força eu me identifico com outras pessoas que pensam parecido e assumo o nome dado a esse grupo. assim, a ideia ganha ainda mais força e passa a compor a minha vida de tal maneira que ir contra ela é como um atentado à minha existência.

quando me confundo assim, uma conversa, uma discussão vira um jogo, uma competição e eu sou o lado do bem, claro, da sensatez e da verdade. se não for assim, o que isso dirá de mim? então argumento, xingo, faço apelos emocionais, uso técnicas e táticas variadas para vencer. para continuar provando para mim mesma que eu estou do lado da verdade, que estou do lado do bem e para manter aquele sentimento que surgiu quando pensei ter descoberto como funciona o fenômeno.

dessa maneira eu me perco totalmente da discussão, da conversa e passo a reproduzir discursos sem ouvir qualquer palavra que o outro diz. e o outro me traz tantos presentes!

há muito tempo eu não participava de quaisquer discussões na internet, por vários motivos. tinha medo do que as pessoas podiam pensar de mim e um receio enorme de magoá-las, de causar algum prejuízo, fazê-las perder o seu tempo lendo o que tenho para dizer (isso também acontece quando escrevo aqui, mas como não estou marcando ninguém e estou em meu perfil fico mais tranquila).

mas ontem eu senti uma vontade muito grande de fazê-lo. fui lendo os comentários das pessoas a uma matéria e fiquei muito brava. reconheci a minha raiva e resolvi escrever um comentário. enviei. depois de enviar fiquei pensando, observando um pouco a raiva que sentia e tive vontade de responder alguns comentários que considerei muito agressivos e que atacavam o meu entendimento sobre um fenômeno. quando li novamente comecei a ver pessoas falando sobre sua própria vida, sobre suas próprias preocupações. vi pessoas que estavam sofrendo profundamente e o comentário agressivo era a forma como podiam expressar sua dor.

ver as pessoas de verdade me trouxe imediatamente para a realidade. o jogo que achava que estava jogando quando escrevi meu comentário com raiva parou de fazer qualquer sentido para mim. pude ver com mais clareza a batalha entre o bem o mal que as pessoas travavam e que eu inúmeras vezes travei, inclusive dentro de mim, com meus próprios sentimentos. naquele momento recebi das pessoas um presente, ainda que triste pelo modo como as conversas estavam se desenrolando.

quando eu me desarmo, quando paro de me identificar com uma ideia, com um grupo, com uma maneira de analisar um fenômeno a vida real me invade e é a partir dela que consigo conversar e encontrar algo mais próximo da verdade. e ainda que não chegue mais perto da verdade sobre um fenômeno, me aproximo do outro com quem estou conversando e me abro para entender a sua realidade, me dispondo para compreender um pouco mais sobre mim também. e talvez saber a verdade sobre mim seja o que melhor consigo compreender dessa vida toda.