reconhecendo-me

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ser mãe

quando se pensa sobre “mãe”, normalmente a imagem que vem à mente remete a um papel bem definido. as regras que versam sobre como ser uma mãe adequada vão desde as emoções e sentimentos que devem e podem ser sentidos até as pequenas ações diárias.

por muitos motivos as mulheres acabam se identificando com o papel quando têm um filho e se empenham em se encaixar nas regras e normas estabelecidas sobre seu modo de pensar, sentir e agir.

quando se concretizou o meu desejo de gerar um filho eu me propus olhar pra esse papel com muito cuidado, procurando agir como um ser integral e único (ou pelo menos me perceber como tal) e, ao mesmo tempo, entender as particularidades da relação entre mãe e filho.

nesse tempo de observações percebi que o impulso de me encaixar no papel composto pelas normas ilusórias é muito forte.

ao me esforçar para me definir como mãe, quando me relaciono com outras, aparece muito nitidamente a comparação e a competição em mim. fico com medo de estar fazendo tudo errado toda vez que alguém dá sua opinião ou sugestão sobre o que fazer com minha filha. fica nítido o medo, sobretudo, de não ser boa mãe, de não me encaixar nesse modelo.

mas como todas as pessoas vivendo o papel de mãe também estão tentando se encaixar dessa forma antinatural, acabamos nos incomodando (em maior ou menor intensidade) com questões similares. nesse momento surge um senso de pertencimento e uma reafirmação de que estou me encaixando sim no papel, já que todas passam por isso. fico aliviada ao não me sentir só.

passado o momento do acolhimento por viver as mesmas coisas que outras pessoas, volta a sensação de estar fazendo tudo errado e de nunca atingir o ideal. volta o esforço. volta a frustração. porque é apenas a inabilidade de se encaixar que temos em comum.

fico imaginando se não é isso que torna a relação entre mãe e filho tão desafiadora.

vemos o filho como um ser que precisa que nos comportemos de maneira padrão, conforme as regras escolhidas e impostas às vezes até antes dele chegar.

se cada pessoa que vive neste mundo é singular, por que de repente uma mãe que se vê com um filho precisa se comportar exatamente como outra pessoa também denominada assim, outra singularidade, que vive uma realidade totalmente diferente?

nos momentos em que me percebo, me lembro da ilusão desse papel de mãe que criei e solto o peso dos ombros. quando isso acontece consigo olhar diretamente para minha filha, um ser único, e fico presente em nossa relação. com isso surge uma leveza, que às vezes se reflete em uma dança, uma canção, um sorriso ou só uma confiança mesmo de que está tudo certo.

mas é muito sedutor querer se encaixar no papel pra conseguir ir bem e ganhar uma estrelinha, um troféu de boa mãe. além disso, quando eu olho para a singularidade que se apresenta à minha frente eu posso agir de maneiras que meu planejamento nunca poderia prever. e isso também é bastante desafiador porque está além do meu controle. quando eu ajo do jeito que já acredito ser o certo antes mesmo de surgir a situação, eu tenho a certeza de que fiz o “meu melhor” e está tudo sob controle. ainda que a criança fique infeliz. ainda que eu mesma me sinta cansada e infeliz.

a relação de mãe e filho conforme concebo em meu imaginário me conforta porque é previsível e traz consigo um número limitado de ações, que posso controlar com precisão. a relação entre mãe e filho com presença, fincada na realidade, traz um mundo de possibilidades.

e como lidar com esse escopo tão amplo de ações? se eu tiver tantas possibilidades, como é que vou medir se sou, afinal, boa mãe? como é que vou me comparar e julgar a outra que também tem milhares de possibilidades de ação em cada momento? como é que vou me julgar, me culpar, me sentir inferior? se me abro para todas as possibilidades fica difícil perpetuar esses padrões com os quais estou tão acostumada.

é meio assustador pensar que não precisamos nos comparar, nos culpar, nos esforçar para nos relacionarmos com os filhos com intensidade. é difícil desfazer essas tensões e largar esse peso. mas, veja bem, mesmo que nos esforcemos para encaixar num padrão, nossa relação com os filhos continua sendo singular - inevitavelmente. o que causa sofrimento não é, então, deixar de se relacionar de forma única, mas estar sempre brigando com esse fato, tentando se encaixar em um modelo que nunca existiu e nunca existirá na realidade.