reconhecendo-me

textos

quando precisei me despedir de quem acreditava ser

ou a febre e a cura

Senti meu corpo se enfraquecer um pouco e precisei me deitar, como de costume. Não estava em casa e já estava acostumada com aqueles sintomas que sempre me acometiam quando permanecia por muito tempo naquele quarto de janelas azuis e sofá marrom, ou na rede, também marrom, que fica na sala. Era a habitual alergia.

Passado um tempo, me senti um pouco melhor e decidimos que iríamos para minha casa, Giovanni e eu. Com as janelas do carro abertas, podia sentir se esvaindo o muco que eu acumulara com aquela alergia. Chegando em casa meu nariz ainda escorria, mas nada além me incomodava.

Não consigo me lembrar de muitas coisas, mas sei que no dia seguinte tudo mudou. Eu estava deitada no maior sofá da sala de minha casa, enquanto Giovanni cuidava de mim. Meu corpo todo doía e eu parecia estar iniciando um processo de febre. Eu dormi e ele foi fazer algumas coisas no computador que fica no andar de baixo. Acordei com minha irmã se sentando ao meu lado para assistir televisão ou eu fui quem a chamou, não sei ao certo, e acho que não importa muito.

Escolhemos um filme e começamos a vê-lo. Eu não consegui acompanhar. Doía a cabeça, doíam os pés, as pernas – doía tudo. Só me restava fechar os olhos e instantaneamente dormir. De tempos em tempos eu pedia ou alguém me oferecia água. E eu seguia esse fluxo sem pensar em tomar qualquer remédio que minimizassem minhas dores ou afastasse de mim a febre.

Giovanni veio novamente à sala e disse que tinha de ir embora, mas que voltaria se eu precisasse de qualquer coisa. Eu me levantei e fui lá na porta abraçá-lo, mas não consegui ficar de pé por um minuto sequer. Uma dor lancinante percorria cada centímetro do meu corpo. Me sentei num outro sofá, de uma cor que lembra mostarda, nos despedimos, ele partiu e eu voltei a me deitar no sofá grande.

Um tempo depois meu irmão e seus amigos chegaram para assistir um jogo de futebol e minha irmã e eu descemos para o quarto dele, onde assistiríamos outro filme. Ela encontrou o termômetro e sugeriu que eu medisse a temperatura. Medi: 38,7º, ou algo do tipo. Pronto, agora tinha certeza. Estava com febre – o que há muito tempo não tinha ou, pelo menos, não sabia que tinha.

Àquela altura as dores estavam fortes demais e eu comecei a pensar que ia morrer. Comecei a sentir uma culpa enorme porque não aceitava tomar remédio ou ir a um médico convencional fazer uma consulta – e ia morrer ali, sem ter feito tudo o que as pessoas achavam que eu precisava para sobreviver.

Um tempo depois recebi uma mensagem de uma grande amiga, Letícia, e, conversando com ela, comecei a prestar mais atenção naquilo que estava acontecendo ali. Era uma morte, por certo. Mas não era a deste corpo físico. Era a morte de algo em mim que não cabia mais. E sem pensar nisso que só depois notei, acabara o filme que falava da morte como um rito bonito de passagem e saímos do quarto.

Migramos para o de minha irmã. Ela se deitou na cama e eu peguei um cobertor. O dispus no chão, deitei por cima, me concentrando ao lado esquerdo, e me cobri com a metade que sobrou. Estava disposta, a partir de então a ajudar a febre a trabalhar.

Fechei meus olhos e foquei toda a atenção naquelas dores que já pareciam ser parte indissociável de mim. E respirando lenta e profundamente entendi que eu precisava exatamente daquilo. Precisava me conscientizar do processo pelo qual meu corpo estava passando. E tudo ganhou um novo significado.

Já beiravam 19h00 de domingo, então fomos chamadas pela minha mãe para nossa oração, seguida de leitura e conversa, que acontece toda semana. Era tudo o que precisava para me reabastecer de forças e prosseguir ajudando meu corpo.

Terminada a oração, deitei-me no sofá, fechei meus olhos e comecei a pedir e conceder perdão a todas as pessoas de quem conseguia lembrar. Fiquei assim por volta de 40min. até que começasse a suar. Dormia um pouco e daí 1h recomeçava o processo: perdoava e pedia perdão, inclusive a mim mesma. E assim segui praticamente a noite inteira.

Fiquei impressionada e satisfeita com toda a situação e logo quis contar para o Giovanni o que estava acontecendo. Ele, mesmo com seu ceticismo crédulo habitual, disse que era muito bonito aquilo tudo. Voltei a conversar com a minha amiga que me incentivara e ajudara a passar pelo processo contando tudo o que tinha se passado. Ela entendia tudo o que eu dizia como se tivesse imersa na mesma situação. Falei com minha irmã que mesmo com seu jeito blasé demonstrou estar feliz por minha caminhada. Minha mãe, sempre desconfiada, ficou aliviada porque fiquei bem.

A febre me ajudou a deixar fluir aquilo que eu mantinha preso dentro de mim. Eu precisei de intensos sintomas para trazer à consciência (mesmo não tenho ficado tão claras) minhas necessidades. E foi assim que o processo de cura se instalou. A morte deu lugar à vida e segui um pouco mais leve depois dessa despedida.


Dois dias depois minha irmã também começou um processo semelhante. Ela não tomou remédios para conter os sintomas, deixou tudo fluir, com bom humor. O que aconteceu internamente dificilmente saberei, porque ela não é de falar sobre si mesma assim. Só sei que ela se curou bem rápido – e eu achei lindo.