reconhecendo-me

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Quando estarei pronta para ser mãe?

Ela era criança e pensava em ter filhos, queria uns 10 ou 11, não se lembra ao certo. Ficava inventando os nomes e achava super divertido pensar nisso. Ela achava que toda mulher sonhava em ter filhos e nem imaginava a possibilidade de não tê-los.

menina caminhando

Foi crescendo e seguiu com a certeza de que em algum momento conceberia seus sonhados rebentos. Pensava que precisava colocá-los na melhor (mais exigente) escola possível, então tinha de ter um emprego muito bom, que oferecesse um ótimo salário.

Foi seguindo a vida tentando conectar seus planos aos seus desejos. Passou num concurso, fez faculdade. E em seguida pensou que compraria uma casa e teria seus filhos quando completasse 26 anos.

Mas aquela vida fazia cada dia menos sentido para ela. Estava incomodada. Um namoro de quase uma vida acabou. Tudo fazia parecer que teria de adiar seus planos, seu desejo tão intenso de ter filhos.

Ficou perdida. Totalmente perdida. Mas não demonstrou nada, nem pra si mesma, tinha que seguir a vida. Se distraindo foi seguindo. Mas um dia encontrou alguém que lhe apresentaria um mundo novo de possibilidades, e ainda seria o seu companheiro. 

Começou a questionar suas prioridades: será que era preciso mesmo um trabalho em que ganhasse muito dinheiro? Será que era possível fazer algo que se conectava mais com seus anseios? Será que os filhos precisariam realmente dessa escola exigente (ou de qualquer uma) pra serem alguém na vida? Será que todo mundo já não é alguém só por existir?

E essas perguntas trouxeram mudanças. Movimento. Ela começou a fazer coisas que faziam todo sentido pra ela mesma, e com isso começou a se conhecer profundamente, aceitando alguns aspectos de si que antes tentava encobrir. Descobriu que, antes de pensar em ter filhos, tinha que se conhecer e que a educação de seus pequenos começaria pela dela mesma.

Ela completou 26 anos, mas não se sentia pronta para ter filhos. Queria, mas tinha outras prioridades. Entretanto, ficou profundamente triste porque não os concebeu quando gostaria. Foi seguindo em seu processo de autoconhecimento e buscando entender inclusive o seu sonho de ter filhos.

Não demorou para se entreter com seus processos internos e se sentir satisfeita tendo essa investigação como prioritária. Entendeu que nem todo mundo quer ter filhos, e isso é algo perfeitamente normal.

Em um momento, talvez bem próximo de agora, ela decidiu que era a hora de começar algo que entendia como preparação para a concepção. Então se abriu com todo o coração para se conhecer em tudo o que se relacionava com esse processo. Assim, descobriu questões internas muito profundas, das quais tinha se escondido desde pequena. Percebeu que não estava pronta para os filhos, que tinha a cura disso tudo como prioridade.

-E agora? Quando é que estarei pronta para ser mãe? Ela me pergunta. Eu digo que nunca estaremos prontos para nada além de sermos nós mesmos e vivermos a vida exatamente como ela se apresenta a cada momento.

Ela fica brava, sai batendo a porta. De repente se vê caminhando pelos seus próprios pés e percebe que de fato esteve sempre pronta para ser quem é. E se sentindo inteira, naquele momento entende que ser mãe não é a questão norteadora de toda sua existência, é uma possibilidade (rica, intensa e profunda, mas uma possibilidade). 

mulher caminhando em uma floresta

Mães e pais geram a vida, mas a existência a seguir concerne a cada um. O encontro de mães e pais com seus filhos pode ser um dos mais profundos que já experimentaram, mas nunca poderá ir além das profundezas do encontro com o seu próprio interior.