reconhecendo-me

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para minha mãe, agora avó

mãe,

quando ainda não compartilhava essa denominação com você, eu já previa que não seria tão simples entendermos as novas relações que se criariam a partir da chegada de um novo membro na família. mas eu não sabia que a nossa relação apresentaria questões tão desafiadoras.

é curioso porque eu sempre senti um impulso muito forte de cuidar, especialmente de você e de nossa relação. talvez não apenas de cuidar, mas também de agradar. muita coisa mudou no momento em que nasceu esse serzinho que precisa de cuidados. apesar de sentir uma necessidade feroz de cuidar dela mais do que de qualquer outro ser, eu fiquei extremamente frágil e desejosa de um lugar em que me sentisse acolhida: um colo de mãe.

esse processo foi muito intenso para mim porque não me sentia devidamente filha, mesmo antes, e o papel ficou ainda mais confuso porque pareceu conflitar com o de mãe que emergia. percebi uma fragilidade com a qual eu não contava.

eu acreditava que mãe era aquele ser responsável pela felicidade alheia e eu me sentia constantemente assim, inclusive com você, embora acreditasse estar compartilhando essa responsabilidade com outras pessoas. no puerpério eu me senti perdida porque eu não achava que você estava se responsabilizando pela minha felicidade. e se não tinha ninguém cuidando disso, como eu ia conseguir, agora, ser responsável pela felicidade de um ser novinho em folha?

ao mesmo tempo em que esse mundo de fragilidade aparecia,sentia uma vontade de me relacionar com o bebê e com o pai a sós. crescia em mim o desejo de entender melhor o nosso ninho, de ver e viver com intensidade, juntos, o desenvolvimento desse ser. eu era tomada pela necessidade de criar a nossa relação de maneira singular, vivendo o que servia e cabia em nossa vida presente. o que consistia, às vezes, em tomar caminhos diferentes daqueles escolhidos por você.

havia um conflito entre querer independência de suas práticas, de sua forma de ver o mundo e desejar que você fosse responsável pela minha felicidade.

até que eu entendi, primeiro, que ser mãe não é se responsabilizar pela felicidade do outro. eu precisava aprender isso, mãe, pra que eu não desse à minha filha o dever e o peso de ser feliz com o que constantemente escolho pra ela. e eu precisava fazer isso para não carregar cargas que não são minhas.

entendendo isso, sobrou o que estava por trás: o carinho e o acolhimento que eu queria receber de você. aceitar ajuda sempre foi muito difícil para mim e, embora você tenha me ajudado muito, eu queria um acolhimento que ia além das questões práticas. eu sei que da forma como eu lido com minhas emoções eu não abro muito espaço para apoio. eu sempre quero parecer forte demais, embora fale abertamente de minhas fragilidades. sempre faço questão de dizer que estou trabalhando os desafios que me aparecem, que já estou consciente e que as coisas estão caminhando, então você não acha que pode contribuir. mas quero dizer que você pode. porque embora você não seja responsável pela minha felicidade e nem eu pela sua, estamos juntas aqui e temos condições de apoiar uma a outra.

quando entendi isso tudo, a outra parte que parecia contrapor essa, da independência, virou apenas uma faceta das nossas vidas diferentes e singulares. me senti livre para fazer minhas próprias escolhas sem ferir quem você é e sem deixar de honrar tudo o que você escolheu por mim.

e agora, escrevendo tudo isso sinto uma vontade grande de te agradecer. você sempre fez muito por mim e continuou fazendo nesse puerpério, mas não quero agradecer pelo que você fez com o intuito de ajudar. quero agradecer pelos embates, pela distância que eu senti, pela sensibilidade aflorada, pelos momentos em que você se viu chateada e especialmente por aqueles que você confessou a chateação. por tudo que você talvez considere como falha e que eu talvez tenha considerado também. mãe, foi esse o caminho necessário para eu entender e abraçar nossa relação que se renova agora. esse caminho foi perfeito. obrigada!

foto de Suellen Lopes