reconhecendo-me

textos

palavras esparsas sobre sensações

o inchaço nas mãos por falta de ação,
a culpa que pesa e faz doer as costas,
a raiva que começa de dentro permanece circulando com a respiração que queima,
a dor de prosseguir tentando ser quem era,
embora saiba que mudou neste instante,

o medo de não conseguir respirar livremente ronda,
medo de estar sempre fadada a sentir raiva de si,
um medo de falhar, como se isso fosse possível,
uma tentativa de se consertar, como se isso fosse possível,
como se fosse um objeto de vidro quebrado que se pode colar de volta,
talvez nem o objeto tenha conserto,
talvez quando acham que consertaram ele só mudou de forma.

uma dor no peito que não deixa esquecer que a raiva se aloja ali,
e a raiva de saber que ela ainda não se dissipou.
a hostilidade pelo esforço de se livrar da raiva como se buscasse soluções,
a hostilidade por não se manter focada na emoção e sempre ter a esperança ou expectativa de melhorar.

um círculo vicioso de raiva e hostilidade de quem acha que precisa saber tudo para ser alguém que preste,
uma crueldade ao lidar com cada passo, cada respiração e cada palavra dita,
um controle de tudo o que pensa, faz e sente e uma punição severa quando não consegue controlar.

um rosto sisudo,
um corpo cheio de raiva,
uma raiva reconhecida.

um sorriso querendo se formar,
mas espera um pouco,
porque é muito sedutor sorrir,
porque sorrir é o habitual,
é onde se enconde tudo o que acha que não pode sentir.

então chega a dor de novo,
a tirania ainda não teve fim.
quando chega à consciência o controle toma o lugar do fluxo
e
tudo
para.

uma respiração longa e uma azia pela culpa de ser tão cruel consigo,
mas um vislumbre de gentileza quando se compreende que é natural a crueldade,
a impiedade,
quando se sente tanta raiva de si,
acumuladaa por tanto tempo.
e a aceitação chega trazendo um alívio e um espaço no estômago.

a dor no peito se dissipa,
ronda o medo de sentir esperança de que a raiva incrustrada tenha partido,
mas pra que tanto medo de não conseguir atingir o que se quer?
continua o controle e a busca por soluções, por resultados,
a busca, enfim.
não estamos aqui para buscar nada, diz a consciência,
estamos aqui apenas para ser e viver cada instante.
mas espera.
deixa querer o resultado, deixa querer melhorar,
querer o alívio da dor é errado? deixa querer.
não há nada de errado em nada.
apenas deixa.

começa a incomodar o inchaço na mão esquerda
e, no mesmo lado,
a dor nas articulações do ombro e do cotovelos,
por querer alcançar além do possível.

e agora em um pequeno suspiro de alívio uma aceitação de que no campo do querer tudo pode,
não há motivo para brigar por um desejo,
que só quer ser acolhido.

é engraçado, porque dizer que não há motivo para brigar por um desejo também não é nada acolhedor,
e ficar controlando o grau de acolhimento também não,
mas observar, só observar o grau de controle pode ser.

se dissipam as dores articulares,
mas quando são lembradas voltam,
porque não foi só uma lembrança,
foi também uma comemoração por ter conseguido controlar e consertar,
tudo bem ficar feliz, tudo bem comemorar,
mas a consciência insiste em dizer que não.

uma pausa e um aprofundamento.

a lembrança de um dia em que não existiu chance de fugir,
de uma situação que estava fora do controle.
e a saída foi tratar-se com mais violência do que sentiu vinda do outro,
porque assim teria o controle da própria vida de novo - seria quem lhe faria sofrer.

e assim cresceu o seu senso de responsabilidade que, estagnado, se misturou com a culpa,
mas não importa tanto o que se tornou,
isso pode mudar em um instante,
o que importa é que serviu e isso tudo tem valor.
a violência e o controle: tudo teve seu lugar,
e tudo contribuiu para chegar até aqui,
então aceita, confia, acolhe e agradece.

e agora um segredo que nada tem de secreto:
não são mais necessários violência e controle como hábito.
não há risco algum de estar na mesma situação duas vezes.
se abra para a resposta que cada momento requer.

outra pausa e outro aprofundamento.

se permitir sentir talvez seja a ação mais potente para cada momento.
se permitir apenas.
ir observando o fluir das emoções,
como se estivesse observando uma nuvem
que muda de forma em pouquíssimos segundos,
que mostra a cada mudança a importância de sentir cada emoção,
que logo se vai
e chega uma nova para compor o quadro da vida,
que também se vai.

mas não agora.
agora é de vida que se vive:
fluida, intensa.
de dores e amores,
de chegadas e partidas,
de ciclos - não de escada,
de recomeços incessantes,
e de respiros e suspiros.

é seguro sentir.