reconhecendo-me

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O que esperar quando você ainda não está esperando?

Quando eu ainda não era mãe, eu pensava que gestar um filho era muito simples. Pensava que eu ficaria apenas flutuando, com uma leveza que nunca tive, e nem pensava na contradição desse pensamento com a realidade, já que, carregando um bebê, o meu peso aumentaria. Não só o peso, claro, como minhas preocupações com um novo serzinho que cresceria dentro de mim. Nem pensava que poderia ter incômodos físicos mesmo com tantas mudanças às quais o meu corpo se sujeitaria.Nem pensava que eu me preocuparia com a posição em que ficava sentada, com o que comeria, com o que pensaria, com o que sentiria.

Quando eu ainda não era mãe, pensava que o parto era também muito simples. Na verdade não pensava muito sobre o parto, já que devia ser algo natural que simplesmente acontecia, sem nenhum mistério. Nem imaginava que para ter um parto, assim, natural, confortável e respeitoso para mim e para o meu bebê, eu precisaria me fortalecer, me informar, estudar, estudar e fazer muitas escolhas.

Quando eu ainda não era mãe, pensava que o pós-parto era ainda mais tranquilo, que era o momento em que eu apenas curtiria o meu bebê, a gente se conheceria e eu faria todas as outras coisas que tinha costume de fazer ao mesmo tempo. Nem imaginava que o bebê que acabou de sair de dentro de mim, onde ficava grudadinho, precisaria de mim quase o tempo inteiro. Que ele precisaria se alimentar como estava acostumado, que ele precisaria de aconchego, de presença, de cuidado. E também não imaginaria que eu ia ter que usar todo o tempo que pudesse para dormir, descansar.

Quando eu ainda não era mãe, eu pensava que educar meus filhos seria moleza. Só precisaria conversar bastante com eles que eles entenderiam tudo e seriam muito obedientes. Eu não sabia que eles muitas vezes não entenderiam essas explicações, ou muitas vezes teriam necessidades tais que as explicações, ao invés de acolhimento, só os deixaria mais furiosos.

Quando eu ainda não era mãe comecei a conviver com mães e comecei a olhar para a minha própria mãe de forma diferente. Comecei a entender que muitas visões que eu tinha estavam fundadas em expectativas de um mundo cor-de-rosa que existia apenas na minha imaginação.

Comecei a me preparar para a realidade sensível, intensa e potencialmente maravilhosa de ser mãe. E achei que saber dessas coisas me tornaria imune ou me ajudaria a lidar com cada uma delas com mais prontidão.

Eu ainda não sou mãe, mas me pego aqui pensando que saber algumas dessas coisas pode me aliviar um pouco quando a realidade acontecer. Só que a verdade é que essas informações não me tornam mais preparada para lidar com os desafios diários, porque eles serão inéditos e individuais.

Então, fico aqui pensando: quanto menos eu me fixar no que deveria ser ou no quanto eu deveria estar preparada, mais aberta estará minha experiência e mais conectada com ela eu poderei estar. Quanto menos eu me esforçar para ser uma boa mãe, mesmo antes dos filhos serem gerados, melhor a probabilidade de eu ser apenas a mãe que eles precisam no momento em que precisem.

E está tudo bem, também, se eu esperar. Se eu desejar e tiver expectativas. Se eu continuar insistindo em usar sempre a palavra “ainda” antes de dizer que não sou mãe. O que importa nisso tudo é a possibilidade de reconhecer cada um desses desejos como projeções e saber diferenciá-los da verdade objetiva e conseguir me conectar de novo com ela.

Porque embora os sonhos possam ser muito bonitos, encantadores, a realidade — aqui e agora — é a única coisa que existe, e aproveitá-la talvez seja a oportunidade mais potente que temos. A vantagem é que ela está sempre disponível, sempre a tempo.