reconhecendo-me

textos

o pai

por muito tempo eu não abri espaço para "o pai" na minha vida.

desde bem pequena eu sentia que meu pai participava muito pouco da minha vida e supus que as mães eram mais importantes e que sofriam mais que o pais (tal como escrevi em uma cartinha para minha mãe: "o dia das mães vem primeiro porque elas são mais importantes e sofrem mais do que os pais").

essa noção de que o pai não era lá muito importante foi crescendo em minha vida e atingiu um pico em minha adolescência, assim como os conflitos com as condutas e atitudes que eu via meu pai tomar. eu cheguei a dizer em voz alta, pelo menos uma vez, que eu não tinha pai.

eu estava muito machucada e queria muito a presença dele na minha vida. eu não acolhia a tristeza que sentia por não achar que eu era importante o suficiente, então me deixei levar pela raiva, porque ela muitas vezes parece dar uma noção maior de força. quanto mais eu queria que ele se aproximasse, mais eu me afastava - até que um dia parei de conversar com ele.

com o tempo a raiva foi passando e eu acabava ficando um pouco triste quando ele falava comigo e eu não respondia, mas achava que ele precisava rever suas atitudes, então eu precisava manter aquela tática. até que um dia voltei a falar com ele (até porque não parecia estar funcionando).

embora tenha voltado a conversar, não tivemos uma grande aproximação e um tempo depois ele faleceu em um acidente. por muito tempo senti que era minha culpa e que eu deveria e poderia ter feito algo para evitar isso. a tristeza pela ausência física, que a partir daí tornou-se concreta, deu lugar à culpa. sem saber o que fazer e achando muito errado nutrir sentimentos considerados comumente negativos, comecei a me empenhar para perdoá-lo por tudo o que passou, negligenciando totalmente o que eu sentia de verdade.

ele tinha morrido, eu não via mais o seu corpo, mas em meus pensamentos, em minhas emoções e em muitas de minhas ações estava a minha relação com ele. o que eu não percebia era que, desde criança, em todas as vezes que pensei na ausência dele, me chateei e me enraiveci a importância dele se manifestava.

eu sempre quis ter filhos. acho que essa era a única certeza que eu tinha sobre qualquer desejo na vida. tive um relacionamento por muito tempo e acreditava que em algum momento nos casaríamos e teríamos filhos. eu já tinha as coisas todas mais ou menos planejadas na minha cabeça e nem pensava em considerar os desejos e necessidades de quem seria o pai dos meus filhos. sinceramente, considerar seus desejos sequer passava pela minha mente. depois de um tempo terminamos o relacionamento e meus planos foram por água abaixo.

as coisas foram mudando quando conheci a pessoa com quem escolhi compartilhar meus dias. em algum momento eu voltei a fazer planos de ter filhos e ele sempre me chamava à atenção para os seus próprios desejos, para o fato de que ele seria o pai e queria estar incluído nesse planejamento. eu fiquei um pouco assustada, porque nunca tinha percebido mesmo que essa era uma possibilidade, então comecei a considerar, de leve, o pai como alguém que poderia participar ativamente da vida dos filhos.

este ano eu escevi um texto muito intenso, parte muito importante da transformação da minha relação com o meu pai e até comigo mesma. o escrevi depois de muito tempo olhando com muito carinho para tudo o que passamos, sem negligenciar minhas emoções, aceitando a nós dois com inteireza. os escritos tocaram de diversas maneiras as pessoas que o acessaram e senti que esse processo fazia parte de algo que ia muito além de mim, embora fosse tão pessoal. o que cada um me trouxe me ajudou a aprofundar cada vez mais nesse processo.

foi a partir daí que consegui olhar para a relação com a ausência do meu pai com mais clareza e em um exercício no curso de preparação para a concepção vi o padrão (do sentimento de ausência) percorrer a minha vida, até que me surgiu um insight: o meu pai não foi apenas uma figura qualquer na minha vida. minha relação com ele era real, mesmo que ele não estivesse presente da forma como eu gostaria. mesmo que eu não o tivesse visto uma vez sequer (o que não foi o caso), ele comporia minha vida com importância e faria parte do meu imaginário, das minhas emoções, da minha vida.

embora ele não esteja vivo fisicamente, nesse dia eu senti a presença do meu pai como nunca antes tinha sentido. e foi nesse dia que me abri para incluir realmente o pai como alguém importante na vida dos filhos, alguém que também pode fazer escolhas e decidir o que concerne a eles.

pequeno exercício:

fiquei pensando nas várias possíveis relações com pais e te convido a olhar com cuidado para as suas, afirmando a importância de cada relação, ainda que ele seja totalmente desconhecido por você. feche os olhos e observe as emoções, as sensações físicas que percorrem seu corpo quando pensa sobre o assunto. veja quem é você nessa relação e tudo o que surge no momento. vá respirando e deixando tudo vir à tona, permitindo que tudo se manifeste em você. se for muito intenso, foque em sua respiração e vá tentando, aos poucos, suavizá-la. permaneça assim até que se sinta pronta para ir, devagar, movendo os pés, as mãos e abrindo os olhos. é só um exercício para se tornar consciente de tudo o que pensa e sente sobre o assunto, mas não dá muita atenção. você pode fazê-lo quantas vezes achar necessário.

-- neste momento quem sou eu na relação com meu pai? me percebo como uma pessoa com fragilidades que precisa de um abraço, ao mesmo tempo em que se sente pronta para acolhê-lo em inteireza. me aprofundo um pouco nesse pensamento, nessas duas afirmações e vejo que, na verdade, os dois entram em fluxo e não há mais o que acolher, de nenhum dos dois lados. somos dois seres humanos incondicionais e mutáveis, com uma relação que transcende a existência material.