reconhecendo-me

textos

o caderno

eu tinha uns 8 anos e minha professora me enchia de elogios, mostrava meu caderno todo caprichado e ficava impressionada, destacando a rapidez com que eu terminava os deveres. ela me considerava uma ótima aluna.

um dia eu esqueci de fazer o dever de casa, por algum motivo. fiquei desesperada, não sabia o que fazer. resolvi mentir. falei com a professora que eu tinha esquecido meu caderno em casa, que era novo, porque o outro tinha acabado e eu confundi os dois.

a professora falou que não tinha problema - mas deixou claro que era só porque eu era boa aluna e ela confiava em mim. isso me deixou ainda mais chateada e envergonhada por eu não ter feito o para casa e ainda ter mentido.

de qualquer modo, achei que era melhor continuar sendo boa aluna pra agradá-la e me corroer de culpa. cheguei em casa e arranquei as folhas já escritas do meu caderno e era óbvio o que eu tinha feito. o caderno estava muito menor e era de espiral, então ficava um espiral enorme com poucas folhas. não sei se eu não percebi ou achava que a professora não ia perceber ou preferia que ela percebesse para acabar com aquela mentira. tudo que sei foi que segui com a ideia.

cheguei na sala e mostrei o dever à professora, que deu o visto que costumava dar e falou alguma coisa de eu ser uma boa aluna de novo. eu nunca me esqueci disso. me senti uma pessoa horrível naquela situação, mas achei que tudo se justificava para continuar assumindo aquele papel de boa aluna, para fazer o que eu achava que agradaria a professora.

era muito mais simples dizer a verdade, assim como em muitas outras situações da vida, mas é preciso se aceitar com a tranquilidade de saber que é suficiente ser você. é preciso estar tranquilo em sua própria pele para dizer que não é e nem precisa ser aquilo que, no fundo, a gente nem sabe se o outro espera mesmo da gente. vai ver ele tá ali só feliz porque você parece com ele quando era pequeno ou gostaria de ter feito as coisas do mesmo jeito. o que as pessoas esperam não é de você, sempre concerne a elas mesmas.

ninguém agrada mais o outro sendo bom aluno, sendo bom filho, boa mãe ou sendo bom em qualquer um desses papeis que definimos com tantas regras. quando seguimos com coerência o que pede nossa essência nos sentimos em paz, bem, e talvez seja até mais agradável estar em nossa presença - ou não, mas quem disse que incomodar é ruim?