reconhecendo-me

textos

meu pai

acho que eu queria poder escrever aqui um texto dizendo o quanto eu admiro o meu pai. mas a verdade é que eu não o admiro. não admiro muitas coisas que ele fez, não admiro os vícios, não admiro a violência com que agia muitas vezes, não admiro a ausência mesmo morando na mesma casa. não admiro os abusos.

também não admiro as piadas, os momentos em que esteve presente e queria nossa presença, sua criatividade para lidar com situações variadas e sua habilidade de não levar a vida tão a sério, embora me lembre desses momentos emocionada e com carinho.

eu aceito.

aceito a realidade que me coube e que me foi necessária. aceito o sentimento de responsabilidade que isso tudo ajudou a aflorar em mim. aceito cada marca, cada trauma, cada desafio que eu tenho plena certeza da possibilidade de acolher e deixar fluir. eu aceito todo aprendizado derivado das nossas relações que, ainda (ou talvez mais intensamente) hoje, vai tomando forma em mim. eu aceito a sua existência incondicional, ainda que não esteja mais entre nós.

eu o aceito em inteireza: todas as suas sombras, que também são (tão) minhas, e toda a sua luz. eu agradeço por ter me dado a vida e eu honro sua existência, assim como honro a minha.

hoje eu aprendi mais uma coisa com ele. aprendi que é bem provável que o propósito da vida não seja de ser uma pessoa admirável, uma pessoa que os outros admirem. talvez o propósito da vida seja o da autenticidade: viver conforme sua essência vibra. de um jeito meio torto, com um monte de traumas e marcas enfiadas embaixo do tapete, se submetendo a impulsos e emoções sem entendê-los muito bem, acho que ele tentou ser honesto.

antes de pensarem que estou sentindo admiração pelas suas inteções digo que não, continuo não sentindo. o que sinto é um alívio por me lembrar que ele fez o que podia a cada momento, do mesmo jeito que eu faço. e eu o aceito assim, e, com isso, abraço mais um pedaço de mim.