reconhecendo-me

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escuridão

no começo a escuridão não incomodava, na verdade nem era sequer questionada. apenas existia e imersa nela estavam todas as outras coisas. inclusive eu, que um dia abri os olhos e enxerguei, devagar, a luz. aos poucos fui me esquecendo do conforto que senti na escuridão e quis permanecer onde estava iluminado. cheguei a sentir medo quando o sol dava lugar à lua e eu só conseguia enxergar vultos de objetos reais misturados com alguns criados em minha imaginação. eu temia a escuridão que me saltava aos olhos e as profundezas de mim. achei que poderia fugir, porque recursos encontrei em toda parte. mas eu caí. e no poço fundo e intenso do meu próprio ser eu vi de novo a escuridão. e eu não podia acender a luz no lugar em que me encontrava, teria de aprender a aceitar e acolher a escuridão exatamente como era. foi desesperador e eu achei, por alguns segundos, que nunca mais veria a claridade novamente. mas, lentamente, o sufoco intenso foi dando lugar a um conforto e uma sensação de confiança foi tomando conta de mim. quanto mais eu aceitava a escuridão, mais nítidas iam se formando as imagens dos objetos que estavam à minha frente. até que vi o contorno de uma porta. abri.