reconhecendo-me

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entre pessoas e escolas: uma alternativa

em todo lugar que ia sempre comentava com quem estivesse ao meu lado: - olha, aquela pessoa estudava na alternativa! é até engraçado, porque era uma escola relativamente pequena, mas eu realmente sempre via alguém que a tinha frequentado em qualquer lugar que fosse. é como dizem: BH é um ovo.

talvez por ser uma escola pequena tenha sido mais fácil conhecer, pelo menos de vista, grande parte das pessoas que lá estudavam. isto, aliado ao fato de eu sempre ter sido muito observadora, com foco especial nas pessoas, possibilitou que fosse natural me lembrar delas.

entretanto, ao tentar resgatar a memória de alguma aula específica do tempo em que estivera por lá, não consegui me lembrar de nenhuma. nenhum professor explicando qualquer coisa, nadica de nada. embora alguns (até muitos) conteúdos surjam em minha mente com certa frequência, eu não sei exatamente como eles vieram parar aqui (diferentemente daqueles que busquei independentemente. destes eu me lembro com uma vivacidade incrível).

a despeito disso, eu me recordo nitidamente das interações e ações das pessoas quando me despertavam alguma emoção. me lembro de eventos e situações desde a primeira turma da qual fiz parte. me lembro dos professores, dos colegas, dos funcionários. me lembro dos lanches que eram oferecidos e depois de um tempo foram extintos – não necessariamente dos lanches, mas das experiências que estavam ligadas a eles. me lembro dos valores que pautavam as ações das pessoas que estavam por trás da escola. estes foram muitíssimo importantes para minha caminhada como aprendiz. me lembro das olimpíadas, dos esportes, dos campeonatos (viva, viva, viva a Escola Alternativa – em ritmo de sociedade alternativa), das provas e das infelizes colas (que me irritavam, preciso dizer), do recreio, das cantinas, dos corredores, das quadras, das salas de aula. no fim, percebo que me lembro mesmo é das emoções que permeavam cada uma das situações.

preciso dizer que na Alternativa me refugiei quando ficar em casa me parecia impensável. me coloquei à disposição dos professores no turno em que não estudava, para me sentir útil de alguma forma e diminuir a dor que eu tentava a todo custo esconder e evitar. as portas ficavam abertas, não por acaso – o acolhimento fazia parte de tudo. disto tive ainda mais certeza porque das pessoas de lá recebi um carinho inexplicável quando o corpo de meu pai se encontrara sem vida em uma tarde de domingo. e o mesmo carinho recebemos em peso quando meu irmão sofrera um grave acidente - ainda que não frequentássemos a escola há um tempo.

entre sorrisos e lágrimas me recordo de cada um que fez parte da minha história – e segue comigo, de alguma forma. nossas interações reais se tornaram vivas em mim.

eu sinto uma profunda gratidão pelos anos em que pude caminhar naqueles corredores, naquelas salas, naquelas quadras – mas não é pelos espaços em si, nem pelas matérias e avaliações. eu sou grata, na verdade, pelas pessoas que ali estavam e que enchiam de sentido aquele lugar. sou grata pela oportunidade de conviver com cada uma delas, porque isso me permitiu desenvolver minhas potencialidades para estabelecer relações interpessoais genuínas.

é difícil dizer isto, mas não fico triste pelo fim do ciclo da Escola. confesso que no começo senti um pesar, porque a escola facilitava o encontro de pessoas incríveis, mas, pensando bem, entendi que essas pessoas não precisam de lugares específicos para se reunirem. os encontros vêm quando se quer verdadeiramente. as conexões que estabeleci vão muito além de janelas, portas e muros. o que faz com que me lembre da escola com tanto amor são as pessoas (alunos, funcionários, professores, pais). e quanto a estas, tenho confiança de que estão a construir neste mundo algo que vai muito além das estruturas formais das paredes de uma escola.

entre escolas e pessoas há uma alternativa. e ela não tem paredes. ela é a vida.