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Doulas: a autocompaixão necessária

Há algo forte por trás da decisão de se tornar uma doula.

Algumas mulheres sentem-se incentivadas a atuar nesse momento depois de sua própria experiência de parto — tendo sido negativas ou positivas, desejam que outras mulheres tenham uma boa experiência — e que, especialmente, sejam tratadas com carinho e acolhimento. Outras ficam sabendo sobre a realidade obstétrica e desejam, com sua atuação, contribuir para uma mudança no cenário. Também há aquelas que gostariam que o bebê tivesse a recepção mais gentil e positiva possível, então começam a atuar.

Não é possível citar todas as motivações pelas quais uma mulher torna-se doula, mas é bastante comum começarem a atuar por sentirem um chamado muito forte, uma vontade grande de trazer acolhimento, amor e carinho para este momento. Na maioria dos casos, há uma forte expectativa de que sua atuação de cuidado possa trazer um ambiente mais gentil e mudar a sensação de medo e insegurança que por vezes marca o parto.

O parto é um momento extremamente intenso para a família — é um processo muito rico, repleto de significados. Essa intensidade reverbera, de alguma forma (diferente, claro), nas doulas. Não há parto em que saiam sem ter aprendido algo. Cada um deles mexe com seu íntimo de modo especial.

Por terem um forte senso de empatia, às vezes, acabam sentindo as dores dos familiares quando o processo não acontece como esperado, como planejado, como sonhado. As dores físicas tiram de letra! Sabem que as contrações têm um objetivo muito bonito, perfeito, de trazer o bebê para este mundo externo. Mas as dores emocionais que ficam marcadas depois de expectativas frustradas são, muitas vezes, delicadas para elas. Podem, por vezes, sentir que foram incapazes de acolher adequadamente a família e muitas vezes sentem-se culpadas, pensando o que poderíamos ter feito diferente para que a história tivesse outro fim (ou melhor, começo).

Se esforçam sempre para que o seu melhor seja entregue para as famílias, para que estejam plenas e apenas emitindo bons pensamentos, acolhendo tudo o que chega com muito amor. Mas existe uma diferença no olhar para seus próprios medos, inseguranças, preocupações e erros.

Elas geralmente têm facilidade para acolher e ver com amor outra pessoa, uma gestante, um familiar com quem trabalham. Mas às vezes falta olhar para si mesmas com carinho e acolhimento.

Com que frequência acolhem o medo, a insegurança e as preocupações de uma família? E com que frequência aceitam plenamente e olham com carinho para suas próprias fragilidades? Quantas vezes veem uma gestante em trabalho de parto como uma mulher forte, maravilhosa e perseverante?

Quantas vezes se veem também dessa mesma maneira? Quantas vezes, pelo contrário, criticam sua atuação como doulas e se sentem péssimas com o que dizem para si mesmas silenciosamente?

Quando cometem um erro, quando sentem medo e ficam inseguras, muitas vezes podem sentir que não são boas o bastante. Não se aceitam. Sentem até que não mereciam compartilhar com as famílias o momento íntimo, intenso e transformador que é o parto. Acham que aquele erro as define para sempre como ser humano. Talvez acreditem que precisam ser perfeitas para compartilhar momentos com outras pessoas. Quando falham, a sua expectativa e seu esforço pela perfeição se desintegram. Sentem que não valem mesmo a pena.

Com um olhar tão treinado para a empatia com o outro, as doulas precisam começar a olhar para si mesmas com compaixão.

É possível realmente perceber as ações e a responsabilidade diante delas sem o peso desnecessário da culpa e da autopunição.

Ao notarmos uma ação que não trouxe os resultados que gostaríamos podemos agradecer por identificá-la naquele momento. Podemos afirmar para nós mesmas: “ainda que eu tenha feito isso eu me aceito profunda e completamente”. Podemos aceitar integralmente quem somos, percebendo que aquela ação faz parte da nossa experiência.

Depois desse momento de aceitação daquilo que vimos como erro, podemos perceber o que em nós sentia precisar agir daquela forma, que necessidade nossa talvez tenha sido negligenciada por nós mesmas. Talvez um medo de algo que aconteceu no passado. Uma preocupação com alguma marca que pode ser gerada no futuro. Algo mais profundo pode ser clareado nesse questionamento. E, lembrando que o passado e o futuro hipotéticos só existiram em nossa própria mente, nos voltamos ao presente, à realidade, e uma transformação pode começar a tomar forma. Encontrando paz na situação, podemos nos perguntar ou apenas deixar surgir uma possibilidade de como agir diferente de forma prática, como podemos nos concentrar e estar presentes para perceber e atuar diante das situações conforme se apresentam.

Quando agimos com autocompaixão, com acolhimento, com aceitação plena de quem somos, podemos integrar o erro à nossa experiência, entendendo que ele serviu para mostrar algo em nós — tornando-nos mais capazes de nos transformar e chegar ao próximo minuto mais disposta, preparada e confiante para servir ao que vier. E, especialmente, podemos acolher os processos das famílias com as quais nos relacionarmos nos sentindo plenamente aceitas, sentindo o acolhimento como parte de nossa própria vida. Porque para cuidar do outro é preciso, primeiro, cuidar de si.