reconhecendo-me

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compartimentação da vida

é madrugada e acordo me lembrando de algo que vez ou outra me incomoda: o que eu chamo de compartimentação da vida. me pergunto por que insistimos na crença de que somos o somatório de partes muito bem definidas de nós mesmos.

eu sou mãe, terapeuta, doula, bacharel em relações internacionais, filha, irmã, pensadora, escrevedora, e sei lá mais quantas divisões possíveis. vou somando tudo isso e fico esperando que o resultado seja “eu”.

vou somando tudo isso e me frustro. ser mãe tem me tomado tempo demais e não estou conseguindo conciliar essa com as outras partes, pelo menos a princípio. me frustro porque sempre que olho para cada um desses papéis parece que não sou lá muito boa em nenhum. me frustro porque quando junto tudo pareço limitada demais diante da amplidão deste mundo. me frustro porque quero dar conta de tudo, porque se não dou, como sou a soma dessas partes, fico incompleta, estou falhando, deixando de ser eu, me perdendo.

quando eu vejo o mundo como uma junção de partes bem separadas acabo acreditando que existe também uma separação entre assuntos e funções da vida. a escola reforça essa crença quando divide as aulas em matérias/disciplinas, como se cada uma delas existisse de forma independente no mundo, como se realmente houvesse uma separação clara desses fenômenos na vida.

nesse contexto, de separação, de divisão, de compartimentação, inclusive entre mim e o outro e o resultado é quase certo. acredito em divisões e dualidades como profissional e pessoal, público e privado, dentro e fora. ser mãe se separa totalmente de ter um trabalho com algo específico. ser mulher se separa de ser mãe. ser esposa se separa de ser mãe. ser filha se separa de ser mãe. é claro, essas relações são diferentes e é importante nomeá-las para facilitar o entendimento. o que causa confusão é a crença de que a diferença traz uma separação real. o que confunde é a idéia de que cada uma dessas coisas existe tão independentes de nós que parecem ser até externas, algo que está lá fora esperando que alcancemos.

acreditar na separação entre a Pollyanna mãe e terapeuta, entre Pollyanna mãe e doula, é como acreditar que a minha mão existe separada do meu braço, da minha cabeça. posso nomear essas formas de maneira diferente para eu entender melhor suas funções e características, mas elas não estão separadas em meu corpo.

é muito claro que quando minha mão se movimenta de propósito sou eu quem está mexendo, e o meu corpo inteiro permanece em mim. quando movimento minha mão também mexo outras partes do meu corpo, inevitavelmente, porque elas não têm uma existência independente entre si e do meu corpo como um todo.

quando me lembro de que eu destaco e diferencio essas pretensas partes apenas conceitualmente, eu me abro para ser quem sou e não me sinto mal por estar mais tempo me dedicando ao que parece a função de mãe ou de profissional ou de filha - porque nada disso está verdadeiramente separado, nada disso deixa de estar em mim quando faço algo que parece ser uma coisa só. quando me lembro que esses papéis são meros conceitos para diferenciar as relações eu me lembro que não tem um ideal, um padrão de como me comportar e não preciso mais comparar meu desempenho com o desempenho que o meu conceito de cada um dos papéis parecia exigir de mim. quando me lembro que não existem essas partes de mim na realidade eu me lembro da minha inteireza, que ao lado da minha incompletude me lembram que sou indissociável do mundo, das pessoas, das relações.

parece que quando nos fixamos em conceitos acabamos limitando a nossa habilidade de ver a vida real que se apresenta à nossa frente. quando achamos que mãe é algo fixo, perdemos oportunidade de criar ações e viver com intensidade o que aparece. quando achamos que “eu” é algo fixo ficamos presos, limitados a funções divididas artificialmente e caímos em um emaranhado de insuficiências.

nos vemos insuficientes e separados e tentamos, ao máximo, desempenhar cada papel com maestria para que acreditamos que está tudo certo com nossa existência. limitamos nossas ações tentando ser suficientes e nos cansamos tentando ser parte do que já compomos.

e se a gente brincar com os conceitos todos? de eu, de mundo, de mãe, de profissional? imagina se a gente se fixa em conceitos de “eu”, quantos limites impomos às infinitas possibilidades?

podemos usar os conceitos, mas se não nos fixamos a eles nos permitimos ser infinitos.