reconhecendo-me

textos

companhia e presença

outro dia eu percebi que quando ando sem companhia eu normalmente tomo alguns cuidados básicos como olhar para atravessar a rua, tento ficar atenta ao que acontece, vejo se estou sozinha, se tem alguém que parece estar me seguindo, essas coisas. sinto um pouco de medo dependendo da situação em que me encontro, do horário, especialmente.

tudo muda quando estou com o meu namorado. é como se eu delegasse a ele toda a responsabilidade da minha segurança, até porque quando estou com ele eu sequer olho para atravessar a rua. ele acaba se sentindo obrigado a me proteger e eu não sinto medo nenhum, de nada. não tenho mais nenhuma preocupação quando andamos juntos.

fiquei pensando como isso pode ser pesado, embora ele nunca tenha mencionado ou demonstrado isso. perceber tal padrão de comportamento me afetou tanto que nos últimos dias eu tenho sonhado com ele, mas o vendo vulnerável, correndo perigo e eu tendo que fazer alguma coisa em sua defesa, para protegê-lo. senti uma tristeza profunda ao acordar de cada um desses sonhos. eu vi que ele também tem suas fragilidades e medos e carregar os meus ao caminharmos juntos é sobrecarregá-lo desnecessariamente.

é ótimo que eu me sinta segura e confiante perto dele. isso me dá certa liberdade para caminhar prestando atenção em coisas que não veria se estivesse sozinha. mas eu preciso permanecer inteira, preciso tomar conta de mim mesma e me responsabilizar pela minha própria caminhada. porque relacionamentos não são feitos de trocas. são feitos de entrega, não de anulação. entrega é presença e para estar presente é preciso estar inteiro e integrado ao momento. ninguém tem a obrigação de manter a minha existência, porque se eu delego isso a outrem, eu me anulo e faço o outro carregar um peso que não é dele.

este texto é para eu lembrar de sempre olhar quando for atravessar a rua, porque a vida segue sendo minha, mesmo tendo pessoas maravilhosas ao lado.