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Como acolher o filho mais velho?

À nossa frente vemos uma criança claramente confusa, nervosa e com medo. Ela começa a agir de forma muito diferente do que está acostumada. Nós sabemos que é pela chegada do irmão mais novo e ficamos preocupados. A criança pode pensar que os pais não terão mais tempo para ela, que não gostam mais dela ou que gostam mais do irmão.

A angústia e ansiedade com a chegada do irmão pode gerar alguns comportamentos regressivos, assim como tentativas mais nítidas de chamar atenção. Embora essas emoções sejam normais e ajudem a criança a entender o seu novo lugar composição familiar, seu incômodo pode gerar preocupação nos pais e cuidadores do pequeno. Nesse, contexto, então, buscamos soluções para diminuir a angústia e tudo o que a criança está sentindo que parece negativo.

Às vezes, com a melhor das intenções, nós falamos para as crianças: não precisa ter medo de perder o seu espaço para o seu irmão, eu sempre estarei aqui para você. Temos dois problemas na afirmação consoladora. Dizer que “não precisa sentir medo” equivale a dizer, muitas vezes, que aquele sentimento é desnecessário e ilegítimo, então a criança pode sentir que está fazendo algo errado ao sentir aquilo. Dizer que sempre estará lá pode não ser verdade. Pode ser que o bebê precise de atenção total e aquela pessoa que disse que estaria lá não estará.

Também com ótimas intenções, alguns adultos tentam dar uma função ao mais velho dizendo que eles vão cuidar do irmãozinho, que vão ajudar. E, de certa forma, esperam que o mais velho colabore com isso. Realmente, nas tarefas diárias, às vezes a criança deseja muito contribuir e se sente muito satisfeita com isso. Mas quando isso é feito para solucionar o problema do medo, da raiva, da confusão, a sensação que é se tem é de que os próprios pais não sabem também o papel da criança mais velha ou o seu valor como indivíduo dissociado de um papel. Assim, a criança pode sentir que ela precisa sempre ajudar para estar incluída na família. Que o único papel dela agora é o de cuidar do irmãozinho e ajudar.

Às vezes a dificuldade de lidar com a situação é tão grande, que alguns pais preferem não tocar no assunto. Os pais podem ter vivido situações semelhantes ou inversas com seus irmãos, podem ter se sentido rejeitados ou podem ter se sentido responsáveis pela nova criança que chegou. Quando há esse silêncio, mas, ao mesmo tempo, um medo de se repetir a história vivida, a criança pode se sentir abandonada, rejeitada. Pode se sentir insegura e não acolhida. Pode repetir os padrões de crenças e emoções dos pais.

Mas, então, como acolher o filho mais velho?

A primeira coisa que um adulto pode fazer para acolher uma criança é se acolher. É perceber o que ele vê na reação de seu filho que está dentro de si. Se vê medo, talvez exista dentro de si um medo de que seu filho sofra, de que ele se sinta abandonado, rejeitado. Talvez ele mesmo já tenha se sentido assim e não quer que o filho sinta o mesmo. Há muitas possibilidades e cada situação, cada família terá suas próprias questões e vivências. Reconhecer em si mesmo é um importante passo para se alinhar e acolher o filho com integridade.

E como se acolher?

Estamos tão acostumados a não prestar atenção direito em nossas emoções que talvez nem saibamos como nos acolher. A primeira coisa, talvez, seja tentar perceber as emoções que nos chegam, nomeá-las. Caso seja muito difícil, talvez perceber as sensações no corpo também ajude. Um peso no estômago, respiração curta, aperto no peito. Identificar essas sensações pode nos ajudar a entender o quanto a situação está nos afetando. Além das sensações, perceber os pensamentos e julgamentos que surgem também pode nos ajudar a ter uma pista de como somos afetados pela questão.

Se eu olho para uma criança que está aparentemente com raiva porque vai chegar um novo membro na família e seus pais não terão tempo para ela posso sentir um aperto no peito, uma queimação no estômago. Identifico isso como medo e preocupação. Os pensamentos estão em uma velocidade que não consigo acompanhar. Então eu olho para o medo e a preocupação, para a queimação e o aperto no peito. Vejo o quanto é importante para mim que aquela criança se sinta acolhida. Percebendo que o meu medo e a minha preocupação vêm da minha necessidade de acolher aquela criança eu os vejo como legítimos e os acolho como são.

Quando o adulto se acolhe, a resposta que a criança precisa surge, e pode ser inclusive qualquer uma das já citadas. Pode ser não falar nada por simples confiança no processo natural do pequeno. Pode ser dizer que ele vai poder ajudar e cuidar do irmão em alguns momentos. Pode ser dizer a verdade: que às vezes o irmão vai demandar muita atenção, mas não quer dizer que os pais gostem mais dele. Pode ser abraçar. Pode ser começar a dançar junto. Pode ser chorar junto. Pode ser qualquer coisa.

Não tem resposta certa.

Mas se eu pudesse dar uma dica aos adultos seria: se acolha, acredite na sua legitimidade e legitime cada um de seus sentimentos, acolha a situação como ela se apresenta, sem julgamentos e sem pensar no que deveria ser, e acolha a criança, cada sentimento, cada sensação, cada lágrima, cada sorriso.

Na convivência entre os dois, confie em seus filhos. Mesmo que seja difícil a chegada do irmão. Mesmo que surjam momentos de expressão de raiva que te deixam com medo de estar fazendo algo errado. Mesmo que no futuro eles disputem, briguem e compitam entre si. A cada dia eles vão se conhecendo, se entendendo e crescendo juntos. Pode ser que um dia você se depare com um silêncio em casa e, pensando que algo errado está acontecendo, se surpreenda com a cena de um lendo o seu livro favorito para o outro. E, mesmo raros, esses momentos servirão para te lembrar que eles se respeitam, se gostam e aprendem muito juntos. E que está tudo bem.