reconhecendo-me

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a que serve o privilégio e a igualdade de direitos, afinal?

vivemos em um sistema de conexões superficiais cujo principal pressuposto, que fica bem escondido, é a necessidade de um expressar poder sobre o outro e o entendimento de que somente dessa forma podemos agir efetivamente no mundo.

O Sistema

funciona mais ou menos assim (pode acrescentar umas doses maiores de consciência):

Preparativos para sua chegada: superficialidade e poder nas relações entre os outros (que juram saber de tudo) e sua mãe (coitada, sabe nada)

você ainda está na barriga e as pessoas (não necessariamente sua mãe) querem já decidir quando você vai nascer. a maior preocupação é com o seu enxoval – e se não for assim, que horror. não confiam na sua mãe e ela tem que ficar o dia todo ouvindo o que é melhor que ela faça em relação a você e, no fim, nem sabem de verdade o que sua mãe sente. às vezes nem ela sabe. melhor não saber. não pode reclamar, não pode se sentir mal quando está grávida. a gravidez é aquela coisa linda que acontece e a mulher não tem qualquer dificuldade, além daqueles enjoos e outras coisinhas físicas naturais. não pode ter crise. ninguém fala do parto. na verdade fala, com medo, dizendo que é a pior coisa do mundo, quase. melhor a mãe nem pensar sobre isso e entregar nas mãos de alguém que estudou muito pra receber o bebê. enquanto isso a mãe tenta se conectar com o bebê, mas esconde tanto o que sente que dificilmente consegue perceber a si mesma.

Seu nascimento: padronização (superficialidade) e poder nas relações entre os profissionais, sua mãe (paciente) e você (bebê)

você nasce. às vezes dá sorte de ser no seu tempo, às vezes é no tempo que alguém achou mais conveniente. é tudo muito estressante para sua mãe que passou por várias situações constrangedoras e doloridas durante o tempo em que você estava nascendo, porque os outros sabem o que é melhor pra ela. e ela precisa ser submetida ao que dizem e escolhem. ao invés de ser recebido em um ambiente de amor, por mais que sua mãe o deseje muito, o clima é de medo e tensão. vai pro berçário ou pra UTI porque mãe não sabe cuidar de bebê. precisa de um profissional especializado, que vai tratá-lo como mais um, pertencente a um grupo específico conforme uma classificação feita ao nascer, ou só como um número da categoria “bebês”. toma um leite artificial muitas vezes, que pode te causar alergias. passa por intervenções de que não precisava. você não entende nada e chora. sofre porque estava ali dentro de um útero quentinho e, de repente, vai prum lugar feito dum material esquisito, escuta uns barulhos muito estranhos e não escuta mais aquela voz, aqueles batimentos cardíacos.

Você vê a sua mãe pela primeira vez depois de ver um monte de gente que te considera apenas mais um bebê (ou, em muitos casos, um paciente) - precisa dizer que tem mais doses de superficialidade e poder?

te apresentam à sua mãe, mas passou tanto tempo longe, em desespero, que é até difícil perceber – mas reconhece, não tem jeito. tenta mamar, mas não é fácil e agora que sua mãe precisa de ajuda ninguém fala nada. você vai pra casa e ela não sabe o que fazer com você que chora o tempo todo. e sua mãe não se sente capaz, já que tudo, até então, fizeram e escolheram pra ela. ninguém falou que seria tão difícil, que você choraria tanto, que ela se sentiria uma mãe horrível. e ela esconde de novo esses sentimentos todos, porque, nossa, ela se sentindo mal assim depois de ter um filho, só pode ser uma pessoa horrível.

Convivência com sua mãe nos primeiros anos de vida: ela esconde tudo o que sente e tenta viver como manda o manual (opa, superficialidade e poder aqui também)

entre trancos e barrancos ela consegue seguir, mas não dá pra amamentar, não tem leite, dói demais. o profissional receita um leite artificial. pelo menos você não morre de fome, pensa sua mãe. se sente horrivelmente incompetente e defeituosa, mas esconde isso tudo. se agarra ao fato de que está fazendo o melhor para o filho e só. você fica doente, sua mãe te leva ao profissional que nem sabe quem você é, o que você come, o que você vive e te receita lá um remédio que serve pra tratar uma doença que você deve ter. você vira paciente, inserido num grupo que tem uma doença específica.

Sua criação: medo, culpa, poder e superficialidade – você é filho

você cresce, sua mãe se sente cada dia mais culpada. se você cai, ela foi relapsa, se você não come, ela foi incompetente ou não sabe cozinhar ou qualquer coisa horrível. tudo o que você faz, no fundo, ela sente que diz respeito a ela. não percebe que o que sente e percebe é que tem a ver - e não a ação em si. se agarrou ao fato de que está fazendo o melhor para você e prefere não prestar atenção nessas coisas. você recebe ordens o tempo todo. não pode fazer nada. sua mãe tem medo. ela não confia em si mesma e não confia em você. e, confuso, você também começa a desconfiar de si.

Sua vida escolar: nova categoria, agora é aluno (não se esqueça de obedecer e não se aprofundar)

vai pra escola. você vira aluno, um número, um ser que deve memorizar algumas coisas para passar nas provas e vestibular. lá é que você não tem vez mesmo. uma enxurrada de conceitos e normas e palavras vazias caem sobre você. e tem que obedecer, tem que competir, tem que agradar. eles é que sabem das coisas, você vai lá só pra ouvir e ser ensinado. tudo o que você quer saber é bobo demais. eles é que sabem o que é imprescindível. eles sabem como você deve aprender. e, por favor, esconda seus sentimentos considerados negativos ou você será encaminhado para um outro profissional. e trate de se encaixar ou você também será encaminhado para outro profissional. seus colegas fazem brincadeiras que te machucam e você acaba entrando nessa e também machuca os outros; mas tudo bem, esconde tudo o que sente. vai dar tudo certo.

A faculdade: sorrisos amarelos, poder e superficialidade

você aprende a lidar com a escola e vai pro próximo passo do sistema: a faculdade. sua mãe fica toda orgulhosa, embora não saiba que você se sente intensamente frustrado. ela também está frustrada consigo mesma e nem sabe, então tudo bem, todo mundo no mesmo barco. porque você também escondeu sua frustração e tá lá com um sorriso. você se agarra ao fato de que está fazendo o melhor que pode, que a vida é assim mesmo.

a faculdade é deprimente. você acredita que a prova é a melhor forma de avaliar o aprendizado de alguém, acredita que eles sabem o que você deve aprender, acredita que estando ali você é quem mais sabe sobre aqueles assuntos que lhe apresentam. você vê pessoas colando como faziam na escola. mas nem pensa no tipo de profissional especializado que esses coladores vão se tornar. ah, todo mundo faz e ninguém morreu por conta disso – que você saiba. e nem pensa também que a falta de compromisso e a superficialidade imperam no ambiente, porque você já se acostumou com isto, já que essa é a vida desde que nasceu.

uau, você se torna um especialista.

O emprego: insatisfação, poder e superficialidade

vai procurar um emprego. meu Deus, que medo, não faz ideia do que fazer. mas encontra. olha, que beleza. você detesta, mas com ele você compra tudo o que quer, você tem plano de saúde, você é bem sucedido. então tá. seus colegas de trabalho também não queriam estar lá e, escondendo tudo o que sentem, se relacionam com você, dizem bom dia e respondem que estão bem sem estar.

Os relacionamentos amorosos: namorado, marido, pai - novos papeis (superficialidade e poder)

e aí você conhece uma moça. ela passa a ser sua namorada e você o namorado dela. cada um precisa cumprir bem seu papel. você nem sabe quem é mesmo, mais um papel vai ser fácil. não é. você se frustra com ela porque não atingiu sua expectativa. ela devia se comportar assim, mas não o fez, então não quero. se casa com alguém legal – só que você nem conhece a pessoa de verdade, e pra ser sincero, nem quer. porque você não quer saber de problemas e dificuldades. nem dos seus, nem dos dela. vocês falam sobre o dia, sobre o tempo, sobre o mundo, sobre o trabalho, sobre os colegas, sobre os planos de antes e pra depois.

O mundo e o outro: você e sua expressão de poder e superficialidade

você não quer pensar nas suas dificuldades, mas quer saber dos problemas do mundo, sim. pra dizer: nossa, esse mundo tá horrível mesmo, que coisa. e reclama do mundo. isso pode! reclama do outro. isso pode! mas não pode perceber o que tem dentro de você, porque é profundo demais.

Você tem um filho: e o ciclo continua

e aí você tem um filho. sua mulher sofre todo o tipo de trauma possível. você a apoia como pode em seu papel de pai. você cria seu filho com o seu papel de pai. o filho é seu, a esposa é sua. e tá aí completo o ciclo de poder e superficialidade. que bom!

parabéns, você é um privilegiado nesse sistema!

mas o que é privilégio?

a resposta do dicionário é a seguinte:
“direito ou vantagem concedido a alguém com exclusão de outros”.

uma tentativa bem intencionada

de repente você se percebe como um privilegiado e se empenha em uma busca verdadeiramente preocupada de compensar o tempo em que recebeu vantagens em detrimento dos outros. você deseja avidamente e luta para que aqueles que ficaram por muito tempo à margem tenham acesso às mesmas coisas que você: escolas, hospitais, faculdade, bom emprego, consumismo. enfim, que sejam cidadãos bem sucedidos para este modelo em que vive.

inserido no sistema que eu exemplifiquei acima, você pensa que a melhor maneira de fazer justiça em meio a tudo isso é privilegiar os desprivilegiados: assim todo mundo tem o mesmo nível de oportunidades, a balança se equilibra e o mundo começa a melhorar. o primeiro passo é descobrir quem são os desprivilegiados, conceituá-los. o segundo passo é agrupá-los conforme suas características semelhantes. o terceiro passo é recorrer ao Estado para que ele os conceda direitos. o quarto passo é educar a sociedade (do mesmo jeito que se educa na escola) para entender e aceitar os direitos concedidos. não necessariamente nessa ordem, mas essas etapas são realmente importantes.

e você provavelmente luta para alcançar esses resultados porque acredita que:

– as pessoas precisam viver vidas no mínimo semelhantes;

– o sistema em que vivemos é o único possível agora;

– é importante ser bem sucedido neste modelo agora;

– o caminho deve ser linear com poucas alterações de percurso;

– é necessário o acesso e, por favor, sempre recorrer às instituições que já existem para ser bem sucedido neste modelo;

– o estado é o único que pode de fato balancear as coisas, então é a ele que temos de recorrer sempre que temos um problema ou queremos uma solução;

– as pessoas podem e devem ser agrupadas caso tenham alguma característica aparentemente semelhante;

– os grupos devem reivindicar ao Estado aquilo que lhes falta;

– o que importa é o que a maioria desse grupo criado pensa, os divergentes não devem ser considerados;

– a causa é sempre mais importante do que as pessoas, individualmente.

qualquer semelhança entre as crenças que baseiam essa forma bem intencionada de fazer justiça e o funcionamento do sistema não é mera coincidência.

quem são “as pessoas”? que vida cada um realmente quer viver? as pessoas realmente querem ser iguais? o que é o sistema? quem o criou e quem o reproduz? o que é sucesso para este modelo? isso é realmente algo importante para a vida? que caminho supostamente devemos seguir? quem o estabeleceu? e por que está estabelecido? o que as instituições são capazes de fazer que uma pessoa não pode? o que as instituições são capazes de fazer que você não pode? o que o estado consegue mudar efetivamente na vida de cada um? quem realmente quer benefícios como grupo para fazer algo dentro do script do sistema? por que agrupar as pessoas se mesmo as características aparentemente semelhantes são diferentes quando os indivíduos são observados em sua inteireza? por que reivindicar ao Estado se há outras possibilidades acessíveis e mais próximas? cria-se o grupo para defender as pessoas conforme a característica comum, depois são excluídas as pessoas que atendiam ao único requisito para a criação do grupo – porque ela não concorda com a maioria. o grupo é criado mesmo pra lutar pelas pessoas conforme sua característica comum? ou é pela ideologia comum? como uma causa, que foi nomeada para defender as pessoas, pode exclui-las assim? por que defender causas querendo incutir direitos?

estes escritos da [Carla Fero] ( https://www.facebook.com/Carla-Ferro-1494077764225689/info/?tab=page_info) talvez digam mais que meu texto inteiro:

“Se queremos direitos é preciso saber que eles têm companhia.
O direito e o poder são a cara e a coroa da moeda da justiça que quanto mais civilizados, mais valorizamos.
Se existem direitos, isso só ocorre com base no reconhecimento da manutenção de graus de poder que fundam as nossas relações.
Como falar em igualdade de direitos se os direitos se fundam no embate de forças?
A desigualdade de direitos é a condição para que haja direitos. A condição para que se possa conferir direitos é que se tenha poder suficiente para garanti-los.
Assim, se o poder desaparece, extinguem-se os direitos.
O âmbito do direito é o âmbito de uma tecnologia de domínios e sujeições.
A produção da exclusão faz parte desse sistema e constitui nosso modelo de governabilidade e justiça.
Tentativas de legitimação ao mesmo tempo dos direitos e da igualdade só podem funcionar enquanto insistirmos em manter os véus que nos impedem de constatar essa evidência.
Por que não revisitamos os direitos à luz do poder que eles legitimam?”

e pergunto, de novo, a que serve o privilégio e a busca pela igualdade de direitos, afinal?