reconhecendo-me

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a dor

a dor sempre foi um tema na minha vida. falar de dor é muito natural pra mim. eu sempre prestei muita atenção em meu corpo, então sabia quando tinha uma dorzinha esquisita na ponta do dedinho do pé e achava interessante anunciar isso. com o tempo fui aprendendo diferenciar cada tipo de dor. algumas tinham a sensação de queimação, outras de ardência, outras de fincada, de aperto, de pressão.

observando, aprendi a associar minhas dores físicas a questões emocionais, crenças e padrões. e comecei a lidar com todos os aspectos juntos, percebendo que cada sensação dolorosa trazia uma de uma maneira diferente de olhar para mim mesma.

assim, um impulso de controlar e resolver essas dores emergiu em mim. eu percebia a dor, tentava identificar a emoção associada e, compreendendo essa ligação, muitas vezes a dor passava. eu me sentia muito bem e no controle da minha própria vida. sentia que eu podia resolver sozinha qualquer coisa que surgisse.

só que eu não fazia ideia de que, na verdade, com essa ilusão de controle, eu só estava lidando com essas dores de forma superficial. nem sempre, mas muitas vezes. em alguns momentos eu conseguia me conectar com a dor, com a emoção, e deixava fluir sem controlar, em uma posição de observadora. mas, às vezes, ficava pensando e tentando descobrir como eu poderia resolver aquilo intelectualmente, conectando e entendendo a relação emocional. quando eu fazia isso, muitas vezes me sentia frustrada porque a dor voltava a aparecer e, para mim, era sinal de que eu não tinha resolvido nada. ficava cansada.

depois de muito tempo tentando solucionar eu ouvi uma mulher que tanto admiro dizer “não tem solução” com um sorriso no rosto. naquela hora eu entendi o que ela quis dizer, mas me pegava o tempo todo tentando solucionar a minha vida, as minhas questões, as minhas crenças. poxa, eu queria resolver minhas dificuldades. imagina que beleza se um dia eu não tivesse mais nada com o que me preocupar? me atraía muito a possibilidade de ficar pairando no mundo. mas eu acreditava que tinha entendido o sentido do que ela disse, então tentava me controlar para não buscar soluções.

depois de um tempo nessa tentativa de controle, eu finalmente entendi o que ela queria dizer. eu não tinha conserto, nem o mundo, nem ninguém. e agora eu digo isso com um sorriso no rosto e com lágrimas emocionadas nos olhos. eu não tenho conserto, solução, porque não tem nada de errado comigo e não tem nada de errado com o mundo e não tem nada de errado com ninguém. existem situações com as quais entro em contato e sinto dor (física, emocional ou as duas juntas). embora eu lhes dê significados variados, elas só são o que são. cada uma delas me serve e me cabe.

quando eu aceito a verdade de cada situação sem esperanças de que com isso vou resolver minha vida eu consigo perceber minhas emoções, minhas estagnações e posso brincar e fazer exercícios com elas para ver o que acontece, para ver o que surge e o que em mim se transforma. às vezes sinto a dor se dissipar como uma abertura, como gotinhas de água se espalhando e só observo. quando estou nesse fluxo, não sinto cansaço ou a sensação de que não estou alcançando alguma coisa que deveria alcançar. eu sei que não sou melhor do que antes por ter conseguido encarar a situação como realmente é. eu sei que sou só eu em um novo momento, aprendendo a me reconhecer.

às vezes eu me pego querendo ser melhor do que fui ontem porque ainda é forte para mim a imagem de estar subindo uma escada rumo à evolução. mas quando fecho os olhos e sinto uma energia forte de um círculo me envolvendo me lembro que a vida é feita de ciclos e não de escada - mesmo. que uma situação não se compara à outra. é realmente impossível um mesmo homem atravessar o mesmo rio duas vezes. se a mesma situação não acontece duas vezes, se eu não sou a mesma de ontem, como posso comparar? e se não posso comparar, como vou dizer que estou melhor?

às vezes eu só preciso me lembrar que não preciso chegar em lugar nenhum. sem essa obrigação de chegar o caminho fica mais fluido. me lembro que estar aqui agora é a única realidade que tenho e é o que me cabe viver. e é maravilhoso poder estar nesta vida com intensidade, aproveitando cada situação que aparece e cada sensação que me desperta. eu vejo que é sempre justo o que preciso. então, quando eu falo de dor, quando eu expresso a minha dor, não é como algo ruim. é só dor. sentindo posso me conectar com sofrimento e estagnação, fluxo ou alguma outra coisa. a dor geralmente vem pra me mostrar que algo novo pode acontecer, que uma mudança está pronta para tomar forma. eu estou aberta pra transmutar. e eu sinto gratidão por cada dor.