reconhecendo-me

para colorir

parte e todo

Ela queria que aquele pedaço dela guardado em outrem se reconciliasse com a inteireza mutante de quem é agora. Até que se lembra subitamente de que aquela parte nunca fora realmente dela, mas daquele que a criou e tomou para si. Nunca fora dela e, especialmente, nunca fora ela.

Se confunde tentando lidar com essas definições de si antes e agora e quer simplificar. Ou melhor, quer precisar não lidar com definições do que sabe não ser definitivo, a não ser por um instante.

E sabendo que não é nem se tornou aquilo que fez há um tempo e ficou guardado na memória até com nome, quer conviver com quem desejar sem temer ser incompreendida. Mas sabe que o medo da incompreensão é a própria incompreensão. Incompreensão da nossa unicidade e do tempo de cada um, das necessidades singulares de um ser que é e faz parte de tudo.

Ela acha difícil entender a inseparabilidade do universo com o que pensa e vê no outro, singularmente. Então teme o que o outro vê. Mas calma, menina, ele nunca verá o que você vê. Nem outrem, nem ninguém. O brilho que você projeta nas coisas faz parte de você. E o mesmo te digo para o que o outro vê.

É confuso mesmo se perceber parte de algo muito maior e, ao mesmo tempo, ter ações únicas e que definem todo o mundo que você é capaz de conhecer com essa maneira limitada de perceber. Mas fique tranquila. Um dia você se sentirá verdadeiramente parte de tudo. E assim vai parar de se preocupar com aquela outra parte que, do jeito dela, completa aquilo a que chamamos universo.

Escrito em 2014.