reconhecendo-me

para colorir

eu sinto frio

eu sinto o frio
percorrer meus pés que não se movem para me levar a um lugar qualquer.

eu sinto o frio
circular em minhas mãos que estão sedentas por tocar, de leve, qualquer coisa que as faça sentir.

eu sinto o frio
encher de água meus olhos que não olham com ternura o caminho de quem por algum momento cruzou o meu.

eu sinto frio
em minhas costas arqueadas que carregam o peso da minha própria vida e outros pesos que invento que são meus.

eu sinto frio
em meus braços que não abraçam cada parte de mim e de minha vida e acabam deixando tudo em minhas costas.

eu sinto o frio percorrer todo o meu ser como se o estado de congelamento fosse a única expressão da minha vida.

solidifico minha mente, meus pensamentos, minhas emoções, minhas crenças, minha história como se o apego a tudo isso me ajudasse a saber quem sou.

eu sinto frio

meus pés gelados começam a se mover e percebo que ainda não estão completamente petrificados.
depois de alguns passos me encontro perto da janela de onde ouço chiar a ventania.

todo o meu corpo sente o vento passar apressado, como se tivesse algo urgente a mostrar.

meu corpo todo estremece.

minhas mãos frias tocam, de leve, a janela de madeira e o vento a fecha com agressividade.

termino de trancá-la sozinha.
ele já não está aqui.

não preciso fazer nenhuma pergunta. não há dúvida. eu entendi.

meus olhos se enchem de lágrimas ao olhar com ternura as pessoas que como o vento cruzaram o meu caminho. eu sinto o calor rolar pelo meu rosto em pequenas gotas.

uma delas desliza sobre meu peito e o calor o invade, trazendo consigo a possibilidade de acolhimento de quem sou inteiramente, de cada pedaço nu e real de mim.

em um abraço envolvo toda minha história e todas as pessoas com quem me relacionei.

minhas costas se erguem como se soubessem o que fazer e o calor da leveza por não carregar mais nenhum peso desnecessário chega de mansinho.

eu não sabia que um abraço poderia aliviar o peso que sentia em meus ombros por dar as costas à verdade e à integridade de mim. eu não sabia e sequer precisei imaginar. aconteceu, simplesmente - sem precisar controlar ou me esforçar.

me lembro vagamente do estado de congelamento em que me encontrara há tão pouco tempo. não percebo mais a solidez ou solidão que pareciam inevitáveis. eu sinto mudança e movimento.

eu não sinto frio. eu sou grata ao vento.