reconhecendo-me

para colorir

de ver-dade

Antes eu me olhava.

Eu me olhava quando avistava minhas mãos, meus cabelos, o vulto do meu nariz, e outras tantas partes do meu corpo. Me mostrava o espelho meu rosto cheio de imperfeições que precisavam de correção e meus cabelos indomáveis.

Antes eu olhava, mas não me via.

Eu me olhava quando, ao andar pelas ruas, não queria encarar o mundo de frente. Abaixava a cabeça pensando que assim poderia me esconder e, inevitavelmente, via meus pés e pernas no caminho que eu, em devaneios, seguia.

Enquanto meus pensamentos pairavam eu não me percebia.

Eu me olhava quando, ao verificar minha imagem refletida no espelho, pensava no que deveria ser feito para que eu não fosse vista como sou. E ao esconder aquilo que achava que os outros não queriam ou podiam ver, de mim esquecia.

No momento em que passei a me ver foi doloroso. Tantas necessidades negligenciadas, tantos sentimentos encobertos. Eu era muito pior do que queria crer. Eu era melhor do que acreditava ter de ser. O choque de tudo isso rendeu choro, morte e lucidez ao acordar e renascer.

Agora vejo meu corpo, deixo fluir meus sentimentos, percebo minhas necessidades. E me descubro, a cada momento, um mar de possibilidades. Encaro de frente as dificuldades e tudo o que ainda há para florescer. Às vezes luz, às vezes escuridão – tudo é beleza, tudo é perfeição. Cada um é o melhor que pode ser.

De tanto olhar, agora me vejo
de verdade.