reconhecendo-me

para colorir

de perto, de longe, de óculos

meus olhos são livres. eu, mesmo sem pensar, deixo-os abertos tempo o suficiente, fecho-os devagar. pisco de leve e rapidamente. com eles percorro estas flores, até que uma delas me prende o olhar. vejo minhas mãos tocando-a com nitidez tal que nada além parece existir. e ao acariciá-la sinto seu toque como em um abraço recíproco. eu estou aqui.

ao seu lado, uma outra se movimenta com o vento. me atento a ela e percebo sua singularidade. ora, são únicas! embora as perceba tão semelhantes… não há espaço para pensamentos alheios ao que descubro com minha presença plena.

paro.

meu coração palpita e meu corpo todo estremece quando escuto um som estridente ao longe. é o meu nome que chamam.

sentindo que não posso estar aqui, já não estou. “o que será que fiz de errado?” e saio sem me despedir das queridas flores como se nada do que eu estivera fazendo fosse importante.

-onde você estava, menino? vive sempre no mundo da lua! você precisa tomar seus remédios para concentração, é hora de estudar, fazer seu dever de casa. como é que você vai ser alguém na vida se continuar perdendo tanto tempo?

ontem, hoje ou amanhã? sobre que tempo preciso responder agora? confuso me calo e nem pisco. a lágrima que queria surgir não chega sequer a tomar forma. e meus olhos secos seguem olhando a lição. todavia viaja minha mente até as flores belas do campo-- porque no livro há um desenho que as tenta imitar.

eu pisco uma vez. o remédio ainda não fez efeito.

e assim seguem os dias, até que eu desisto de escolher. a partir de então só olho lição e obrigação. e penso, enquanto tento fazer: “o que meu trabalho virá a ser? a quem servirá? será que fazendo assim vão gostar?”.

acordo um dia e sento à mesa para olhar a lição. tudo embaçado, não vejo direito.o que há comigo? mais um problema, agora de visão.

falo com mãe que, preocupada, me leva ao doutor: “precisa de óculos o menino, não enxerga de perto, só vê bem de longe (ou vai ver só imagina)!”

óculos prontos, coloco pra ver – e não é que vejo mesmo? será que agora vou conseguir agradar? lição, lição, lição, lição. remédio. óculos. fiz tudo direito, agradei todo mundo, estou satisfeito – eu acho.

bastante tempo depois, mesmo com óculos não vejo direito. preciso de outro. troco. lentes mais fortes – que bom ver assim de novo.

lá de longe vejo uma moça. meu coração dispara, que coisa! será que é amor à primeira vista? ela chega perto, e perto faz tão bem…

nos casamos.

um dia ela chega contente, trazendo um objeto por mim desconhecido:
-estou grávida, vamos ter um filho!
-que bom, meu amor, que alegria – no fundo, eu confesso, tremia.

chegou o dia do parto. meus óculos? remédio? esqueci no carro.

esquece.

eu sabia o que fazer, além de tremer: contração e massagem, seguro nas mãos, toalha na testa.

é agora. é agora. meu coração entra em festa!

suavemente meu filho chega em meus braços, do seu jeito. ela e eu o pegamos e o colocamos logo em seu peito. eu vejo meus braços envolvendo os dois, vejo aqueles olhinhos desbravadores, ela me olha e não há antes ou depois.

reparo a janela no canto, vejo lá uma flor. – e tudo em mim se conecta – arregalo meus olhos de amor! eles se enchem de lágrimas e percebo. estava ali tudo o que precisava pra descobrir:

eu vejo, com nitidez tal que nada além parece existir.